Cultivo-Cultura


por Washington da Selva


A Coroação
Bordado em conjunto EPI de aplicação de agrotóxicos
(touca árabe, camisa, calça) — Escultura Têxtil
190 x 44 x 35 cm (Alt, Larg, Prof)


ver também: Corpo-território, arquivo, Experiências epidérmicas
           
         Cresci plantando mandioca, milho, quiabo, abóbora, feijão andu, batata doce e outras culturas que estavam associadas a agricultura que minha família vem praticado por diversas gerações no bioma do Cerrado brasileiro. Então, a minha concepção de cultura se inicia a partir e com a agricultura familiar sem terra, fruto da resistência de tecnologias de plantas e cultivos afro-indígenas e nômades.

Na perspectiva que tenho trabalhado, o agronegócio - como tem sido praticado nas últimas décadas - é um projeto de etnocídio e de extinção cultural. Desde 2021, tenho pesquisado sobre os EPI’s (equipamentos de proteção individual) de aplicação de agrotóxicos, a partir de uma relação próxima com estas roupas pelo histórico familiar de trabalho terceirizado de homens da família operarem como aplicadores de pesticidas em lavouras de café na região de Carmo do Paranaíba - MG.

Com o avanço do agronegócio na minha região:

  1. a roça e a agricultura familiar passou a desaparecer e a dar lugar para a monocultura do café;
  2. as famílias agricultoras (homens, mulheres, idosos, adolescentes e crianças) para sobreviver, eram incorporadas como trabalhadoras em funções precarizadas e muitas das vezes análogas à escravidão;
  3. os territórios foram cercados por lavouras de café e ficam diretamente expostos a locais onde agrotóxicos são frequentemente pulverizados.

Segundo o jornal Brasil de Fato “Mais de 70% das mortes por agrotóxicos ocorrem nas regiões Sudeste e Nordeste”, sendo a minha cidade natal fica localizada entre as cidades Patos de Minas e Uberaba, ambas apontadas entre os 12 municipios mineiros com maior índice de mortes por agrotóxicos (Juca Guimarães, Mais de 70% das mortes por agrotóxicos ocorrem nas regiões Sudeste e Nordeste, Brasil de Fato, 2019).

Adquiri uma peça completa de aplicação de agrotóxicos e comecei um trabalho que duraria três anos, pesquisando e bordando manualmente os processos de plantio do quiabo neste uniforme criado para proteger um indíviduo. Salvaguardo na pele deste trabalhador o próprio conhecimento protegido por ele. A partir da minha gestualidade, opero nas instâncias da proteção que a cultura do quiabo produz ao inscrever-la no corpo desta roupa que foi produzida para aculturalizar, insubordinar e matar.
               
A colonização criou as veias abertas da América Latina e delas, o agronegócio - em suas distintas formas - há mais de 500 anos drena para os países dominantes a riqueza produzida no território - ouro, ferro, lítio...acúcar, café, algodão, soja... - Desde o século XVI o agro é pop, e não poupa ninguém. E nesse fluxo da riqueza, escorre também o sangue da terra e o sangue das mulheres e homens desta terra, em particular indígenas e negros, enchem as mãos e os bolsos daqueles que a determinam como fonte direta de riquezas naturais e de força de trabalho barata, para a realização de um projeto de sociedade que mantém, inevitavelmente, à margem a imensa maioria das gentes deste território (SOUZA, 2019: 250).


bibliografia

Juca Guimarães, “Mais de 70% das mortes por agrotóxicos ocorrem nas regiões Sudeste e Nordeste”, Brasil de Fato, 2019. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2019/08/22/mais-de-70-das-mortes-por-agrotoxicos-ocorrem-nas-regioes-sudeste-e-nordeste Acesso em: 22 de mar. de 2024.

SOUZA, Cristiane Luíza Sabino de (2019). Terra, trabalho e racismo: veias abertas de uma análise histórico-estrutural no Brasil. Tese de Doutorado em Serviço Social. Programa de Pós Graduação em Serviço Social. Centro Sócio-Econômico. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.




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Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação Para a Ciência e a tecnologia I.P., no âmbito do projeto «CEECIND.2021.02636».