Performance


por Josefa Pereira


Ana Mendieta.
Image of Yagul, Summer 1973.
Flowers on body (Silueta series)


ver também: Não performance, espacialidade, movimento

           
           Quando dizemos “performance", podemos tratar de conceitos distintos: como no contexto das artes nos referindo à artes vivas produzidas pela dança e teatro, por exemplo, ou também como categoria artística específica e históricamente relacionada às artes visuais. Ou podemos ainda, discutir performance a partir de estudos da antropologia, e de estudos culturais contemporâneos sobre a formação de identidade. E atualmente, estas distintas abordagens se transbordam mutuamente para permitir formular diversas discussões relevantes.

De maneira geral, pensamos a performance como uma forma de discutir compreensões sobre a dimensão da ação, ou sobre a força das ações enquanto gestos que fazem, produzem, mobilizam, sustentam, criam e/ou transformam mundos. Ações entendidas como aquilo que constitui e transforma eventos, matérias, estados, relações, pensamentos, hábitos etc.

Victor Turner, no campo da antropologia, propõe como estudo o cruzamento entre o papel dos rituais na formação das sociedades e os estudos teatrais, a fim de evidenciar a dimensão da ação, ou seja, da performance, como constituinte da formação das sociedades enquanto processos contínuos, que se estruturam na experiência desses ritos e práticas, e que se ativam a partir da forma como os corpos/pessoas agem e se relacionam nas diversas culturas. Judith Butler, em estudos filosóficos contemporâneos, amplia o pensamento da performance enquanto ações processuais que formam e refazem constantemente as identidades. Nesse sentido, ao desenvolver uma teoria queer e feminista, propõe que o gênero é um ato performativo: algo que fazemos, produzimos e reproduzimos constantemente diante de uma esfera pública e de uma transmissão cultural. Neste grande salto entre autores, ou nas diversas abordagens que poderíamos explorar aqui, é interessante observar o ato da performance como um conjunto de ações constituído nos corpos e entre os corpos, diante de um outro. Performar implica ver e ser visto, reconhecer-se diante de uma esfera pública.

No contexto das artes do teatro ou da dança, por exemplo, performance define as artes vivas, implicando uma ação desempenhada por um ou vários corpos -humanos e também mais-que-humanos - em um regime de visibilidade/invisibilidade, de tornar algo público diante de um público. Já como gênero específico, a performance art surge como uma categoria histórica na esteira das artes visuais e de seus movimentos vanguardistas, sendo sua aparição marcada principalmente a partir das décadas de 1960/1970. Seu cerne está na crítica ao mercado da arte e à sua hiperprodução de commodities, convocando, como crítica a esse sistema de consumo, o retorno da esfera da experiência e do existir à prática artística, tendo o corpo e a presença como principal mídia.

Essas artes do corpo sustentam, assim, a potência da impermanência, da efemeridade e dos processos que se ativam na presença. Diferentemente da performance teatral e da noção de personagem, o corpo, nessa arte da ação, se manifesta enquanto identidade e expressão do sujeito imerso e implicado na experiência que ativa. Dessa maneira, não se trata de uma interpretação-representação, mas de uma diferença entre representação e presentificação, que visa promover “uma experiência através da qual conteúdos serão elaborados”, a partir da ação que o sujeito-artista irá ativar, como explica a professora e artista Leonora Fabião. Ela define, então, essa ação da performance como a formulação de um “programa performativo”:

“Muito objetivamente, o programa é o enunciado da performance: um conjunto de ações previamente estipuladas, claramente articuladas e conceitualmente polidas a ser realizado pelo artista, pelo público ou por ambos sem ensaio prévio. Ou seja, a temporalidade do programa é muito diferente daquela do espetáculo, do ensaio, da improvisação, da coreografia.
(...)
Através da realização do programa, o performer suspende o que há de automatismo, hábito, mecânica e passividade no ato de “pertencer” – pertencer ao mundo, pertencer ao mundo da arte e pertencer ao mundo estritamente como “arte”. Um performer resiste, acima de tudo e antes de mais nada, ao torpor da aderência e do pertencimento passivos. Mas adere, acima de tudo e antes de mais nada, ao contexto material, social, político e histórico para a articulação de suas iniciativas performativas. Este pertencer performativo é ato tríplice: de mapeamento, de negociação e de reinvenção através do corpo-em-experiência.
Reconhecimento, negociação e reinvençãonão apenas do meio, nem apenas do performer, do espectador ou da arte, mas da noção mesma de pertencer como ato psicofísico, poético e político de aderênciaresistência críticos.”


bibliografia
Borges, Laís Gomes. “Performance - Victor Turner”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2019. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/performance-victor-turner>
Butler, Judith. Problemas de Género Feminismo e Subversão da Identidade. OrfeuNegro. Tradução: Nuno Quintas.1ª edição 2017
Fabião, Leonora. Programa Performativo: O Corpo-Em-Experiência, em https://orion.nics.unicamp.br/index.php/lume/article/view/276
Goldberg, Roselee. A Arte da Performance do futurismo ao presente. Orfeu Negro. Tradução: Jefferson Luiz Camargo e Rui Lopes. 1ª ed. 200.



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Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação Para a Ciência e a tecnologia I.P., no âmbito do projeto «CEECIND.2021.02636».