Visualidades da dor


por Mariana Meireles


ver também: arquivo, patologias fílmicasexperiências epidérmicas 
           
        Ao colocar em relevo a existência de um corpo-sensível, configurado como caixa de ressonância das experiências, este verbete contrapõe-se diretamente à noção de corpo-máquina difundida pela cultura contemporânea e neoliberal. Nesse sentido, a imagem-objeto instaura suspeita no olhar ao tentar produzir coesão entre fragmentos da placa de potência de uma máquina de lavar e um rosto humano de uma mulher. Tal aproximação não produz unidade, mas fratura visual. A distorção intencional entre as partes e a sutura exposta evidencia a impossibilidade de uma máquina constituir-se como corpo e, por extensão, de um corpo se reduzir a máquina. A imagem revela, assim, a tensão entre o orgânico e o mecânico, desafiando a pretensão de eficiência absoluta. Sob uma perspectiva infrapolítica, emergem as noções de desumanidade e a produção social de corpos considerados menos humanos, processos que naturalizam a exploração, o desgaste e o esgotamento. Ao evidenciar a falha dessa equivalência, a imagem denuncia o imaginário produtivista que sustenta a concepção neoliberal de corpos eficientes, programáveis e substituíveis.

        A imagem, enquanto objeto estético e político, inspira-se em Assentamento (2013), obra de Rosana Paulino que explicita a assimetria, o desajuste e a ferida colonial inscritos no corpo de uma mulher escravizada. Ao compor esta imagem sem apagar a dor nem as cicatrizes que marcam esse corpo violado, aquele que historicamente movimentou os motores do capitalismo moderno, a sutura não opera como reparação harmoniosa, mas emerge como gesto ambíguo: tenta reunir os fragmentos, ao mesmo tempo em que expõe o desalinho. As costuras formam queloides visíveis na epiderme, tornando explícita a violência que persiste mesmo após a tentativa de recomposição. O corpo suturado não retorna à integridade, ele testemunha a história da ruptura. Em diálogo com essa poética, a imagem do corpo-máquina instaura uma questão ética e ontológica: que força vital sustenta o corpo humano quando ele é tratado como engrenagem? Poderia uma máquina pensar ou sentir dor? E, sobretudo, o que se perde quando o corpo vivo é reduzido à lógica da máquina?

        Ao adotar a definição da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), este verbete entende a dor como uma experiência sensitiva e emocional desagradável, atravessada por fenômenos biológicos, culturais e existenciais. Suas definições e mensurações são validadas a partir da perspectiva da pessoa que sente a dor, tornando seu registro clínico autorreferenciado. Diante das limitações da linguagem, “a dor existe quando e onde o sujeito a sente” (Rico; Barbosa, 2010, p. 247), evidenciando as fronteiras da naturalização biomédica. Mesmo enunciada, a dor resiste à tradução objetiva e permanece vinculada a uma experiência íntima e, em parte, inominável (Fleming, 2003). É nessa zona de opacidade, em que instrumentos clínicos e linguagem técnica se mostram insuficientes, que se abre o campo das visualidades da dor. Impossibilitada de ser plenamente verbalizada, a dor encontra, na fissura do dizer, condição para sua imaginação por meio das imagens. Assim, a visualidade não se reduz a ilustração, mas atua como operador epistemológico capaz de acolher o que escapa à palavra, permitindo, como propõe Didi-Huberman (2012), “ver nas imagens o lugar de onde sofre, o lugar onde a cinza não esfriou”, ampliando a materialidade da dor e reinscrevendo-a nas dimensões estética, ética e política da experiência.

        No contexto investigativo que confere ineditismo à expressão das visualidades da dor¹ esta perspectiva desloca o olhar para a dimensão biográfica do padecimento de professores universitários. Ancorada no paradigma do sensível e na pesquisa (auto)biográfica, a investigação analisou narrativas de 213 docentes de instituições de ensino superior do Brasil e de Portugal, gerando um acervo imagético resultado de uma performance registrada em ensaio fotográfico e materializada na exposição Zona Dolorosa: quando a dor passa a existir². A pesquisa buscou não apenas dar visibilidade às condições de trabalho e ao mal-estar que atravessam a docência universitária, mas também acolher aquilo que se revela nas frestas da invisibilidade, nos silêncios e nas dobras do desassossego. É nesse espaço sensível, onde o visível e o invisível se tocam, que a investigação se inscreve, deslocando-se entre gestos de escuta, sensibilidades corporais e coreografias imagéticas que emergem do trabalho imaginativo com narrativas.

        Inserida em uma cultura marcada pela aceleração, eficiência e hiperprodutivismo, a docência universitária experimenta o mal-estar como sintoma de um mundo empobrecido de negatividade (Han, 2015), no qual o crescimento da produtividade e dos rankings institucionais ocorre em paralelo à suspensão das funções científica, política e intelectual da universidade. Nesse contexto, as visualidades da dor ultrapassam a mera figurabilidade do sofrimento e passam a operar como dispositivo de pensamento, transformando o ato de ver em uma experiência interrogativa, na qual o olhar se constitui simultaneamente como pensamento e posição epistemológica (Didi-Huberman, 1998; Knauss, 2006). É nessa inflexão que a corporeidade se afirma como fonte de conhecimento, reposicionando os estudos sobre a docência ao reconhecer o corpo-performance como espaço de inscrição estética da palavra. Assim, “[...] o que no corpo e na voz se repete é também episteme” (Martins, 2023, p. 23), inaugurando um saber sensível, encarnado e aurático, que articula experiência, percepção e pensamento em um único gesto epistemológico.

        Assim, individualizada e projetada pela autopercepção corporal, a dor expõe a vulnerabilidade intrínseca à condição humana e se impõe como uma das expressões mais contundentes das diferenças individuais. Sob uma perspectiva contra-colonial, ela provoca perguntas fundamentais: de quem é a dor? Qual dor pode ser verbalizada? Quais corpos estão legitimados a senti-la e a expressá-la? Até o momento, a dor só pode ser reconhecida no corpo vivo. Máquinas não sentem dor nem sangram, ainda que falhem, exigem vigilância, enquanto os corpos reclamam escuta. Ao mobilizar a alegoria da máquina, a imagem que inaugura este verbete tensiona a engrenagem que articula vida e trabalho, mostrando como a automatização do sujeito é sintoma da cultura do hiperprodutivismo e de seus efeitos sobre o corpo e a psique. Recusar o corpo reduzido a mero executor de tarefas é rejeitar a ficção do corpo-máquina. Essa postura contra-colonial reivindica a centralidade de um corpo sensível, que resiste à redução técnica e à naturalização da exaustão, reafirmando-se como locus de subjetividade, experiência, pensamento e resistência.


¹ Pesquisa de pós-doutorado “Visibilidades da dor: um ensaio sobre condições de trabalho e mal-estar docente”, vinculada ao Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (Portugal) e ao Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (Brasil). Desenvolvida no âmbito dos projetos “Educação, narrativa e saúde: direito à vida e à educação em tempos de refigurações” (CNPq nº 40/2022) e “Educação, narrativa e saúde em perspectiva internacional” (CNPq nº 14/2023), financiados pelo MCTI/CNPq, a pesquisa integra ainda as atividades do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Política Educacional e Trabalho Docente (INCT/Gestrado/UFMG)

² https://www.belasartes.ulisboa.pt/zona-dolorosa-exposicao-de-mariana-meireles/



Referências

Bogduk, H. M., & M., N. (2020). IASP terminology. Seattle: IASP Press.
Didi-Huberman, G. (1998). O que vemos, o que nos olha (P. Neves, Trad.). Ed. 34.
Didi-Huberman, G. (2012). Quando as imagens tocam o real. PÓS: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes da EBA/UFMG, 206–219.
Fleming, M. (2003). Dor sem nome: Pensar o sofrimento. Edições Afrontamento.
Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço (E. P. Giachini, Trad.). Vozes.
Knauss, P. (2006). O desafio de fazer História com imagens: Arte e cultura visual. Revista ArtCultura, 8(12), 97–115.
Martins, L. M. (2023). Performances do tempo espiralar: Poéticas do corpo-tela (2ª ed.). Cobogó.
Rico, T., & Barbosa, A. (1997). Dor: do neurônio à pessoa. Departamento de Educação Médica, Faculdade de Medicina de Lisboa; Permanyer.
Paulino, R. (2013). Obras. Recuperado em 3 de abril de 2024, de https://www.rosanapaulino.com.br

 






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Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação Para a Ciência e a tecnologia I.P., no âmbito do projeto «CEECIND.2021.02636».