Fato-Ficção
por Fabián Cevallos Vivar

Between the Waves (2012).
ver também: archivo, corpo-filmico
O projeto epistemológico dos estudos coloniais baseia-se na oposição binária entre “fato” e “ficção”, atribuindo o critério de verdade aos processos que, em primeiro lugar, tornam determinadas afirmações legíveis como “fatos”. Para que uma memória seja reconhecida como tal, ela deve habitar o tempo cronológico e ser reconhecida como algo que nele se desdobra. Se não se revela, se não produz evidência de si mesma, não pode ser arquivada nem se encaixar na arquitetura da história; será transformada em um não-evento e, portanto, em algo irreal. Do ponto de vista epistemológico, por exemplo, a autoetnografia, entendida como um método de análise de experiências individuais e coletivas baseado na memória, tornar-se-ia impossível, na medida em que essas memórias são simultaneamente não documentadas e dinâmicas (Bochner 2013).
A noção de “grades de inteligibilidade” (Stoler 2002) evidencia que aquilo que é considerado como evidência ou verdade não é neutro, mas historicamente e socialmente produzido no interior de regimes específicos de conhecimento e poder. Essa perspectiva é especialmente relevante para o conceito de Arquivo Desobediente (AD), no qual o ato de arquivar é compreendido não como uma preservação passiva da verdade, mas como uma negociação ativa e corporificada com as condições coloniais que estruturam aquilo que pode ser lembrado ou registrado.
No âmbito de uma perspectiva anticolonial, o argumento de Stoler convida a uma leitura crítica do próprio corpo como arquivo, um arquivo que resiste aos paradigmas de evidência impostos pelas epistemologias coloniais. O arquivo somático, nesse sentido, torna-se um espaço de contraprodução, no qual a memória não é simplesmente armazenada, mas performada, contestada e inscrita por meio de atos de desobediência corporificada. Ao rastrear como os “fatos” são produzidos e consumidos, o AD recusa a autoridade da documentação colonial e, em seu lugar, coloca em primeiro plano as dimensões corporais, afetivas e mnemônicas por meio das quais as histórias subalternas persistem e respondem.
Ao desestabilizar o par conceitual “fato/crença”, Stoler aponta para os limites das categorias modernas e coloniais que organizam aquilo que pode ser considerado um evento, uma entidade ou uma forma de conhecimento. A sugestão de que o “fato” pode não ser apenas fato e de que a “crença” não constitui um substituto classificatório adequado expõe como a colonialidade depende da redução de mundos heterogêneos a fatos empíricos ou interpretações culturais. Essa redução marginaliza modos de existência e formas de relação que não se conformam às partições ontológicas ocidentais.
Desfazer a colonialidade da história, portanto, não significa simplesmente ampliar o registro histórico, mas interrogar a própria história como um regime ontológico que determina quais tipos de acontecimentos podem ser reconhecidos como eventos. Ao reconhecer que aquilo que é considerado a-histórico pode estar saturado de eventos que escapam à verificação empírica e que não podem ser traduzidos como “crença”, abrimos a possibilidade de arquivos capazes de registrar relações com seres e forças considerados inanimados ou impossíveis dentro do roteiro ontológico da modernidade.
Nesse sentido, a formulação de De la Cadena oferece uma orientação metodológica para a construção de um arquivo anticolonial. Em vez de assimilar eventos não modernos às categorias de crença ou cultura, é necessário suspender esses reflexos interpretativos e permitir a emergência de ontologias nas quais o mundo é constituído por meio de agências heterogêneas. Essa abordagem não apenas amplia aquilo que pode ser considerado um evento, mas também resiste à imposição colonial de hierarquias epistêmicas, possibilitando formas de narrativa capazes de acolher aquilo que a história moderna torna ininteligível.
Nesse sentido, o AD se distancia radicalmente das formas tradicionais ao oferecer a possibilidade de abrir o arquivo histórico para escutar a “natureza”. A criação de eventos, mesmo ficcionais, nas relações entre humanos e não humanos gera um regime de realidades que não necessita de provas para afirmar sua existência no presente. Como resultado, devemos reconhecer a existência de arquivos que se estendem para além do tempo e do espaço do Estado-nação moderno e de suas instituições.
Um exemplo particularmente ilustrativo desta forma de arquivar é a obra Between the Waves (2012), da artista Tejal Shah. Esse AD interroga as relações entre humanos e não humanos em ambientes tóxicos e em processo de desaparecimento.
A artista apresenta uma espécie de fabulação circular em uma instalação de vídeo composta por cinco partes, que aborda a crise produzida pela condição antropo-capitalo-colonial. Uma lua em chamas, a animação de um ser orgânico-mecânico, unicórnios ficcionalizados no lixo, praias poluídas, esponjas e animais de plástico de cores vibrantes submersos na água. A relacionalidade consiste em estabelecer vínculos com o não humano. O humano transforma-se em um inseto no aterro sanitário, recolhe plástico na floresta de mangue, assimila corpos em decomposição que se fundem e se desfazem em objetos e corpos por meio do toque e do sexo. Esses seres, dançando em meio aos resíduos, são representados como superfícies sensíveis em ebulição, inseparáveis e em constante transformação.
Em um sentido utópico, essa forma de imaginação confere narratividade ao não humano. Ao fazê-lo, desestabiliza a dicotomia humano/natureza que impede que a natureza seja considerada um sujeito histórico e, de fato, um sujeito de direitos.
A obra de Shah busca uma narrativa que responda à pergunta: como podemos sobreviver com aquilo que resta, com as memórias, e, a partir delas, criar novos objetos? Segundo Marisol de la Cadena, essas chamadas narrativas irreais são, na verdade, possíveis; são ficções legítimas, inseridas em um regime ontológico e em um sistema cultural de crenças. Descolonizar o arquivo, nesse contexto, implica ficcionalizar a história e reconhecer tais “crenças” como formas potenciais de evidência (De la Cadena 2007).
Bibliografía:
Bochner, A. (2013). “Introduction: Putting Meanings into Motion. Autoethnography’s Existential Calling”. in Holman Jones, S., Adams, T. E., and Ellis, C. (eds.), Handbook of Autoethnography. Abingdon: Routledge. Pp. 50–56.
De la Cadena, M. (2007). “Marianos’s archive. The eventfulness of the ahistorical”. Duke: Duke University Press. Pp. 117-152.
Stoler, A. L. (2002). “Colonial Archives and the Arts of Governance”. Archival Science. Amsterdam: Kluwer Academic Publishers. Pp. 87-109.

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Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação Para a Ciência e a tecnologia I.P., no âmbito do projeto «CEECIND.2021.02636».
